Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

A chita é o pano nosso de cada dia

O tecido popular tem valor patrimonial e estampa a identidade brasileira
| Por: Raquel Medeiros | Fonte:

A trama aberta da chita é quase uma tela que revela transparência à luz do sol. Mas, o que esse tecido popular mostra através da estampa floral de tons contrastantes é uma história que se confunde com a própria identidade brasileira. Da roupa dos escravos aos saiotes dos vestidos juninos e dos revestimentos de colchões à condição de vedete nas vitrines de grifes renomadas, a chita é o pano nosso de cada dia. Democrática, tanto veste personagens da vida real como de clássicos da literatura de Jorge Amado. Decora palhoças e sobrados sem distinção e emoldura de Norte a Sul recortes do nosso imaginário popular.

Originária da Índia medieval sob o nome de chint (mancha) a chita navegou pelas rotas comerciais da Europa até aportar no Brasil pelas mãos dos colonizadores portugueses. Desde então registra uma trajetória que conta parte da nossa formação social, da indumentária de uma época e da expansão da indústria têxtil. Também salpica de folhas e flores - miúdas ou graúdas - o universo fantasioso e poético que dá vida aos personagens que povoam o folclore do país. De algodão, esse tecido transita entre a simplicidade e o requinte esbanjando personalidade.

Estética e recordações forradas de flores

No Brasil, a produção têxtil tece as referências da chita - em escala industrial - nas primeiras décadas do século XX. De lá para cá se incorporou à nossa memória afetiva. Quem não tem recordações forradas com o colorido vibrante desse tecido? A mesma vibração proposta pela estilista mineira Zuzu Angel, que em 1960, revolucionou a estética da moda utilizando o pano que vestia colchões e camponeses em suas criações. As peças exibidas em um desfile de moda em Nova York arrancaram aplausos.

Agora, a chita volta à cena como referência identitária. É o fio da meada retomado por estilistas de vanguarda que encontram nela versatilidade e valor patrimonial. Nomes como André Lima, Glória Coelho, Karlla Girotto, Lino Villaventura, Marcelo Sommer, Raia de Goye, Reinaldo Lourenço e Ronaldo Fraga já assinaram criações com os "florais" de algodão fininho que são a cara do Brasil.

A mais completa tradução

Para a região Nordeste ela é a mais completa tradução. Principalmente no mês junino, durante as reverências aos santos católicos João, Pedro e Antônio e às colheitas do milho e feijão. É quando a chita se multiplica em cortinas, bandeirolas, toalhas de mesa, chapéus e vestidos que se agitam como um grande jardim florido ao vento.

No artesanato regional, a chita é pano para toda obra. São colares, bolsas, almofadas, luminárias e tudo que se permita ganhar vida através dela. A cooperativa artesanal "As Cabritas", da cidade de Boa Vista, Paraíba, dá a dimensão de como o tecido une funcionalidade e beleza. Entre os produtos 100% feitos à mão, destaque para bolsas e carteiras que seduziram o gosto do europeu, abrindo rotas de exportação. É o caminho inverso da "nossa" chita às origens. E mais do que nunca, cheia de bossa!

 

Para saber mais:  

Livro "Que chita bacana", de Renata Mellão e Renato Imbroisi (A Casa, 2005).

Almanaque Brasil de Cultura Popular http://issuu.com/guilhermeresende/docs/almanaque125_especial 

Museu Têxtil Décio Mascarenhas - Mantido pela Companhia Cedro e Cachoeira (em Caetanópolis-MG) funciona desde 1983 com um acervo de mais de 1.000 peças. É o mais completo museu têxtil do País. A Cedro foi a primeira fábrica brasileira a produzir chita em escala industrial