À Moda da Casa

/ A moda com tempero paraibano

O design frutifica um "Balaio de Cores" e sonhos na Comunidade Alfa de Cabedelo

Fruteiras, vasos e luminárias da coleção "Balaio de Cores" serão lançados no Salão de Artesanato
| Por: Raquel Medeiros

Alfa é o nome de batismo da comunidade. A primeira letra do alfabeto grego soa apropriada ao lugar onde tudo parece à espreita do começo. É lá, na periferia de Cabedelo - cidade portuária da Paraíba localizada a 19 quilômetros da capital João Pessoa - que um pequeno grupo de mulheres entrelaça fios coloridos com o sentimento de urdir um futuro mais justo. Deixam o anonimato. Agora são artesãs. Misturam tons, envolvem arames com linhas e moldam as peças do projeto Balaio de Cores. Sob a consultoria do designer Sérgio Matos, através do Sebrae Paraíba, a experiência artesanal tem efeito balsâmico para o corpo e alma no recomeço de uma nova vida.

Na Associação de Arte e Cultura Nova Paisagem está o teto que as acolhe. Criada e mantida por voluntários - desde 2008 - ela conserva as portas abertas e envolve crianças e adultos em oficinas diárias de alfabetização, tear manual, desenho, pintura, capoeira, cerâmica e informática. A realização do projeto "Balaio de Cores" apresentou o design à comunidade e está transformando a rotina de quem dele faz parte. As aulas iniciadas há dois meses fizeram desatar a criatividade exposta nas fruteiras, vasos e luminárias de curvas sedutoras e tons vibrantes. As peças que inspiram vivacidade têm destino certo: o Salão de Artesanato Paraibano que acontece em João Pessoa, entre os meses de dezembro e janeiro.

A produção marcha em ritmo acelerado, no compasso da ansiedade que vislumbra a exposição e contato com o público. O design oxigena as descobertas. Sobretudo, as potencialidades adormecidas nas mãos nunca antes dedicadas a criar, a deixar correr solta a habilidade guiada pela imaginação. Aos olhos da presidente da associação, a artista plástica Maria dos Mares, o projeto formata um território metafórico onde moldar, entrelaçar, escolher cores e fazer amarrações constituem passos simbólicos e fortalecedores no cotidiano das mulheres.

Para quem compartilha conhecimento, a vivência na Comunidade Alfa devolve outros saberes. O designer Sérgio Matos enfatiza que as visitas dedicadas à consultoria são enriquecidas pelas transformações visíveis no comportamento do grupo, nos depoimentos espontâneos carregados de sentimentos impulsionados pela arte de criar. "Eu tenho absorvido lições de vida a cada dia. São muitas as dificuldades e superações dessas mulheres. Venho para ensinar e acabo aprendendo", assinala.

Três Marias alinhadas pela arte

O ato de esticar o arame galvanizado e juntá-lo ao cordão de rede com a amarração colorida das linhas de crochê são parte do processo de desenvolvimento dos produtos. Momentos de entrega e experimentação ante a criação. Um trio de mulheres simboliza o eixo do grupo que abraçou o projeto. Três Marias, três gerações, três caminhos alinhados pela convergência da arte. Maria das Graças, Maria das Dores e Maria da Penha são sinônimos de determinação e persistência que desafiam as próprias trajetórias e o entorno carente de quase tudo.

O limiar na guinada da vida das Marias é a associação. No espaço que dribla as adversidades e aposta na arte como ferramenta de transformação social, os sonhos se multiplicam e as angústias cotidianas desvanecem. A criação que enche os olhos preenche o espírito. Formas, cores e texturas capturaram o interesse de Maria das Dores, 53 anos, dona de casa e avó de três netos. O manuseio dos fios no tear de pregos foi a transição para o projeto Balaio de Cores e o alívio para a depressão que a acompanha na viuvez. "O estresse e a ansiedade não me deixavam dormir... Tomava calmantes. Comecei com os tapetes do tear e agora estou fazendo as peças que o professor ensina. No início a gente achava que não se garantia e aí vê todo mundo babando com nosso trabalho", descreve orgulhosa. "É melhor que faixa preta pra curar a depressão", arremata em relação aos remédios controlados prescritos para sua enfermidade.

Contida, de olhos serenos e pouca fala, a aposentada Maria da Penha, 68, participa do projeto com a crença divina que se opõe ao impossível. A pesca e agricultura escrevem seu passado e o design toca suas mãos com o encantamento das formas que lembram desenhos da natureza. A associação é referência de acolhida, conversas compartilhadas que suprem a rotina de solidão. A "arte" de criar 12 filhos em condições desfavoráveis ampara, com sabedoria, a certeza de transformar arame e fio em peças de beleza e funcionalidade. "O que vai aparecendo pra fazer, com fé em Deus, a gente vai agindo e realizando", declara resoluta.

A disposição de Maria das Graças é o combustível que abastece as companheiras. Aos 29 anos de idade, "Gracinha" - como é conhecida na comunidade - divide seu tempo no cuidado às crianças que frequentam a associação e na produção das fruteiras, vasos e luminárias da coleção. A destreza na execução das peças revela a artista nata. "Depois que a gente pega habilidade é bem rápido", descreve na contemplação dos utensílios que cobrem de cor a simplicidade da sede. Em torno da mesa improvisada onde trabalham e nutrem sonhos, as três esperam as doações que são vitais para a continuidade do projeto: arame, linhas, tesouras, alicates, agulhas e material elétrico.

Os pedidos se estendem para além da porta. Reclamam a cidadania através dos direitos mais básicos como limpeza urbana, saneamento, assistência à saúde e educação. Políticas públicas que representam um "balaio de cores" para a realidade que tão perto do mar segue sem tom.        

 

A artesã Maria das Graças (Foto: Sérgio Matos)