À Moda da Casa

/ A moda com tempero paraibano

"Lá vai o Cafuçu brincar o Carnaval"

A extravagância é a marca do bloco carnavalesco que tem inspiração no estereótipo do brega
| Por: Raquel Medeiros

Não às tendências que regem o mercado da moda, ao minimalismo e discrição. As roupas e acessórios dizem sim aos excessos e exageros para compor personagens que sob a ótica de quem julga podem ser adjetivados de brega e cafona. No Folia de Rua, prévia carnavalesca de João Pessoa, capital paraibana, o bloco Cafuçu é a síntese da anti-moda talhada na irreverência e nesta sexta-feira (08), a partir das 18h, vai invadir as ruas do Centro Histórico de João Pessoa. A concentração no Ponto de Cem Réis e na Praça Dom Adauto vai dar a largada para o folião seguir o ritmo alucinante do frevo e a nostalgia das marchinhas. A música será comandada por 15 orquestras que seguirão no chão, marcando o passo da multidão.   

O hino do bloco, com letra assinada por Kennedy Costa e Paulo Vieira, dá pistas de como incorporar a identidade do Cafuçu: "Cabelo com brilhantina/Duas lapadas de pinga/Pente no bolso/No corpo muita ginga/Medalhão no pescoço/Cheirando a Mistral". Para o antropólogo Adriano de León, o perfil do bloco traz à tona uma performance contestadora. "É o que foge às padronizações, ao circuito do poder e do consumo. O exagero no vestir é um superlativo do que se convencionou chamar de brega. Agora, essa personificação do cotidiano ganha o viés da espetacularização e se distancia da proposta estética questionadora", pontua o professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O estereótipo controverso que traça o perfil do bloco moldou a novela "O Cafona" (1971), de Bráulio Pedroso, centrada no personagem Gilberto Athayde, interpretado por Francisco Cuoco: o novo rico de origem suburbana com imagem e atitudes rudes que contrariavam a nata da sociedade carioca. 

Um dos fundadores e organizadores do Cafuçu, o ator Buda Lira, argumenta que a essência do bloco é uma caricatura do "cafona" que não tem a intenção de recair sobre a ridicularização. "É uma brincadeira de carnaval onde cada um expressa a sua maneira e sentimento de interpretar o que é brega. Não queremos ditar referências nem fazer censura", explica preocupado em ressaltar que o mais importante é o olhar saudosista que resgata a estética e o comportamento do passado. "O espírito do Cafuçu é composto de uma memória social e cultural e isso está na roupa, no repertório musical e nas atitudes", diz Buda. 

Memória é o que não falta ao bloco de arrasto nascido em 1989 com uma dezena de amigos. O visual colorido e irreverente é responsável pelas adesões que já representam mais de 100 mil foliões com trajes que saem do fundo do baú, dos cabides dos brechós ou dos armários contemporâneos. A receita do figurino está na mistura que contraria as tendências e a discrição. A extravagância é o acessório indispensável para acertar a produção.

Cafuçu (É com ele que eu vou)
Kennedy Costa e Paulo Vieira

Cabelo com brilhantina
Duas lapadas de pinga
Pente no bolso
No corpo muita ginga
Medalhão no pescoço
Cheirando a Mistral

Lá vai o Cafuçu 
brincar o carnaval 

Quem passa em Tambaú 
Sabe o que é alegria
O Cafuçu é uma eterna folia

Eu sou a cara da massa
E quando a gente passa
A moçada toda vai gritando assim

Olha o Cafuçu
Olha o Cafuçu
Também sou
Olha o Cafuçu
Também vou
E é por isso que é com ele que eu vou