À Moda da Casa

/ A moda com tempero paraibano

Em cena, figurino em flor

A simbologia religiosa da flor do maracujá está no espetáculo "Flor da Paixão" com figurino que exalta a dualidade do masculino e feminino
| Por: Raquel Medeiros

Tafetá, organza, crepe, cetim, algodão... Matéria prima submetida à modelagem em papel, ao corte afiado das tesouras e às mãos de hábeis costureiras que conduziram máquinas para unir frente e verso, arrematar detalhes e transformar tecidos em figurino. As peças estão prontas para o espetáculo a "Flor da Paixão". O nome apoia-se na metáfora dos jesuítas que viram na flor do maracujá uma simbologia para descrever o martírio de Jesus. Na adaptação marcada pela originalidade do texto que insere elementos da cultura regional, o drama integra o projeto da Paixão de Cristo 2012, realizado pelo Governo Municipal de João Pessoa.  Com entrada franca, entre os dias 6 e 8 de abril, na Praça do Povo do Espaço Cultural, o público vai assitir a história da figura central do cristianismo conduzida pelos relatos dos personagens de Maria Madalena e do apóstolo Judas Iscariotes. As apresentações noturnas têm início às 19h e 21h.

A dualidade da narrativa é a marca da dramatização que tem Antônio Deol na direção geral de mais de 80 pessoas em cena entre atores, bailarinos, músicos e coristas. A direção musical é de Marcílio Onofre com assistência do maestro Eli-Eri Moura. O figurino? De Tainá Macedo. Aos 23 anos, a produtora de moda e figurinista assina com talento a sua segunda participação no projeto cultural que abre edital a cada ano para selecionar uma nova releitura do espetáculo. Depois do drama "Sagrada Família", em 2010, ela lança mão da maturidade na concepção de mais de 180 figurinos que vestem a interpretação da "Flor da Paixão".  

Para os narradores imersos nos conflitos pessoais e históricos que pontuam o enredo, Tainá apostou na oposição de cores para ambos. A concepção também foge à tradição das referências de gêneros. Maria Madalena, a prostituta convertida à palavra do Evangelho, vai expor o espírito feminino e mediador em um figurino iluminado pelo azul que contrasta com peças em laranja. No corpo de Judas Iscariotes - o apóstolo que traiu Jesus por 30 moedas de prata - vestes em tons de magenta e vinho. "A ideia é exaltar a dualidade dos personagens com aspectos contrastantes e questionadores sobre a natureza de cada um", explica a figurinista.

Elo temporal e de unidade

No personagem de Jesus a roupa traduz o elo temporal que une passado e presente. "Cristo veste peças que remetem à simplicidade e contemporaneidade. A criação foi materializada na calça masculina comum e camiseta de cambraia branca que traz nas costas aplicações de pétalas recortadas em organza e tafetá para referenciar a flor que inspira o espetáculo", enfatiza Tainá, ressaltando que o detalhe empresta movimento e leveza. A metáfora da flor do maracujá como simbologia à Paixão de Cristo retrata a coroa de espinhos, as cinco chagas e os três cravos da crucificação. Elementos visíveis em figurinos, a começar pelas cores que de acordo com as espécies do fruto, variam do amarelo ao roxo. Esta última tonalidade exprime o sofrimento.   

A unidade de texto, cenário, figurino e adereços propõe uma interlocução do drama da Paixão com a cultura local. Manifestações como a prévia carnavalesca Folia de Rua, São João e Festa das Neves (em homenagem à padroeira da cidade) serão lembradas durante a encenação. Exemplo disso está na passagem bíblica sobre as Bodas de Caná, em que Jesus transforma água em vinho. A marcação da quadrilha junina recordará a celebração que foi cenário do milagre. Entram em cena babados e saias rodadas típicas da maior manifestação popular nordestina.

Na Estação da Moda a costura da Paixão

Embutido no figurino da "Flor da Paixão" está o esmero das costureiras do Centro Vocacional Tecnológico. Também chamado de Estação da Moda, o órgão ligado à Secretaria de Ciência e Tecnologia da Prefeitura de João Pessoa vem servindo de base a para a elaboração dos figurinos do projeto idealizado em 2006. Especialistas na produção de roupas para o teatro elas são parte essencial na montagem do espetáculo e não escondem a emoção em participar de cada nova versão, costurando o drama que conta a vida e morte de Jesus Cristo.

O aprendizado da costura ainda na infância é o traço em comum que marca a vida das cinco profissionais responsáveis pela realização das mais de 400 peças de roupas. O espetáculo que tem início com uma grande flor no espaço cênico configura o trabalho que atravessou dois meses ininterruptos entre moldes, alfinetes, tesouras, agulhas e máquinas. Concluído quase às vésperas da apresentação, o figurino compõe recursos da narração situando o tempo e a personalidade dos personagens.

Na abertura da dramatização, na sexta-feira santa, as costureiras serão - a um só tempo - espectadoras e coadjuvantes. Estarão em cada detalhe do figurino e particularmente em algumas vestes. Mesclada ao público Maria Bezerra, 61 anos, estará no Jesus vestido por sua destreza. Maria Fidelis, 63, radiante na luz das estrelas e Ivaneide Alves, aos 39 anos, majestosa ao lado dos Reis Magos. Maria José Rodrigues, 43, emocionada no manto de Isabel que aguarda o nascimento de João Batista e Luiza Alves, a mais jovem da equipe com 35 anos de idade, dividindo voz com o coro. E no meio da multidão, cada uma sussurrando baixinho: "eu costurei essa Paixão!"