À Moda da Casa

/ A moda com tempero paraibano

A profissão do alfaiate mantém passado e presente sob medida

Os mestres da costura masculina batizaram o estilo alfaiataria e ainda resistem ao tempo e à concorrência do mercado industrializado
| Por: Raquel Medeiros

PROFISSÕES DA MODA

A moda é rica em detalhes. E o que ela apresenta como produto final traz a participação de um leque de profissionais especializados. Mãos e mentes devotadas a um processo realizado em etapas. São caçadores de tendência (cool hunters), estilistas, modelistas, designers gráficos, costureiras... Para destacar os atores que movem esse mercado o site Nas Entrelinhas dedica uma série de reportagens às profissões. E é o alfaiate que abre caminho para revelar os bastidores das linhas e agulhas que vêm costurando a história da moda. 

 

Os pontos calculadamente feitos à mão alinhavam a senha para o resultado com caimento perfeito. A roupa sob medida que nasce do ofício habilidoso do alfaiate batizou o estilo alfaiataria e ainda resiste aos avanços do tempo e das inovações impostas pelo mercado industrial. Contrariando a velocidade do que é exibido em larga escala nas vitrines das lojas "fast fashions", os artesãos da linha e agulha ainda se debruçam sem pressa - mas com muito esmero - na confecção do terno que é sinônimo da elegância masculina desde o início do século 19.    

Com quase 70 anos de história a Alfaiataria Vesúvio, na cidade de João Pessoa-PB, não cedeu às alfinetadas que propagaram o fim da roupa sob medida. Máquinas de costura, esquadros de madeira, réguas, tesouras e um ferro de passar de mais de seis quilos são quase uma extensão das mãos do trio de alfaiates que mantém o nome da casa aberta pelo italiano Pedro Ritondalle na década de 40. A confecção das peças por eles elaboradas esboça uma pequena linha de produção, que ganha ares de ritual.

Precisão, paciência e destreza 

Tudo tem início com a precisão do corte que continua na tesoura articulada agora pelos 85 anos do alfaiate Arnaldo Gomes de Lima, dos quais 67 estão dedicados ao ofício obtido na antiga Escola de Aprendizes Artífices. "Começo marcando o desenho no tecido com giz, seguindo medidas que são pura matemática para conseguir o caimento perfeito. Aqui, cada um faz uma coisa, senão embola tudo", enfatiza com humor.

Da mesa de talhe o paletó passa a ganhar forma no alinhavo em branco do mestre José Elias Xavier. Por trás dos óculos de grau, olhos perspicazes de quem aos 70 anos continua exigente para deixar a peça em ponto de prova praticamente com dedal e agulha. Entre os profissionais que ainda guardam o exercício da atividade na Paraíba, ele já cumpriu bodas de ouro e é quase uma raridade na sua especialidade.

A calça calculada pelos esquadros e matemática resultante das seis medidas tomadas no corpo do cliente é costurada pela destreza do caçula da equipe. Edijalma Rodrigues, aos 63 anos, não conheceu outro ofício que não fosse o do seu pai. "É uma atividade que exige virtudes como a paciência e dedicação. Nós somos uma minoria que ainda mantém a profissão viva", argumenta com a experiência acumulada ao longo de 46 anos de costuras, provas e satisfação de quem veste o produto final.

Vincos marcados na história

A alfaiataria Vesúvio tem "vincos" bem marcados na história da Paraíba. Nos antigos livros de medidas da clientela que exibia o talhe da casa estão registradas personalidades que assinalaram épocas. Costumes e ternos saídos da mesma mesa de corte que trocou o endereço inicial da Rua Maciel Pinheiro pelo atual, na Rua Irineu Pinto, 146 (Centro), vestiram homens importantes em dias de casamentos, celebrações solenes e posses do alto escalão político.

Sem perder a concentração no alinhavo que estrutura um smoking, Elias cita de cabeça nomes como os ex-governadores paraibanos Pedro Gondim, Tarcísio Burity e Wilson Braga. "Também atendíamos a muita gente que morava no interior do Estado. Ainda há quem aproveite uma visita à capital para fazer encomendas", argumenta o alfaiate.

Em meio a personalidades e pessoas comuns, os livros de medidas são a memória viva de clientes que mantêm fidelidade ao ateliê por mais de quatro décadas. Entre os mais recentes figuram aquelas pessoas que não têm a facilidade de encontrar roupa pronta que vista tamanhos fora do padrão. "Temos clientes com medidas pouco convencionais, seja pelo peso ou altura", explica Edijalma. 

Novos tempos: do linho 120 à microfibra

Da época áurea dos anos 50 e 60 aos dias atuais a Vesúvio teve que adaptar-se às mudanças impostas pelo tempo, pela concorrência da roupa industrializada e escassez da matéria prima. Hoje, o trabalho no ateliê funciona em um ritmo menos intenso, mas sempre pontuado pelo capricho meticuloso de perseguir a satisfação do cliente.

Os alfaiates da Vesúvio enfatizam que a pouca oferta de tecidos nas lojas paraibanas também contribuiu para uma queda na linha de produção da casa. A exceção fica por conta da manutenção da tradicional lã tropical que continua no posto de vedete responsável pela leveza, forma e movimento da roupa. O linho 120% (denominação que indicava a densidade do fio) era importado da Itália e passou com muita frequência pelas máquinas de pedal dos "mestres" da Vesúvio.  A sua carência cedeu lugar à microfibra, tecido sintético que revolucionou a indústria têxtil nos anos 80. Ainda assim, para o trio, a roupa masculina e sob medida continua "alinhada".

SERVIÇO:

Alfaitaria Vesúvio - Rua Irineu Pinto, 146, Centro. João Pessoa-PB. Fone:  (83) 3241 5372