À Moda da Casa

/ A moda com tempero paraibano

Parahyba: cidade de Nossa Senhora das Neves, das tradições e da moda

O vestuário traduzia modernidade e a Festa das Neves era passarela da moda
| Por: Da Redação
Parahyba: cidade de Nossa Senhora das Neves, das tradições e da moda
Belle Époque influenciou a moda paraibana

Quando a cidade de João Pessoa completa 426 anos de fundação, o site Nas Entrelinhas resgata fragmentos de uma modernidade que mudava o traçado das ruas, dos casarios, das atitudes e comportamentos da capital paraibana no início do século XX. A terceira cidade mais antiga do País foi pulsante, embevecida e apressada em acompanhar os passos das transformações que chegavam com o burburinho do que já acontecia na Europa e nas grandes urbes brasileiras da época, a exemplo do movimento Belle Époque. Costumes também contados pelas roupas e pelo comércio local que abastecia a moda naqueles primeiros anos de 1900. Esta matéria traz o cenário da modernidade (baseado em artigo do historiador Waldeci Ferreira Chagas) e do ambiente da Festa das Neves (relatada no livro do pesquisador Willis Leal, Memorial da Festa das Neves). Tudo contado nos moldes da moda daquele tempo.

Modernidade no início do século XX

Os recortes desse período, revelados através de anúncios publicitários publicados nos jornais A Imprensa e A União, emolduram uma identidade construída através do vestuário. Os textos foram extraídos do artigo "Urbanidade, Modernidade e Cotidiano na Parahyba de Início do Século XX", de Waldeci Ferreira Chagas, professor doutor em História, da Universidade Estadual da Paraíba. O artigo integra o livro Outras Histórias - Cultura e Poder na Paraíba (1889-1930), organizado pelos pesquisadores e doutores em História, Alômia Abrantes e Martinho Guedes dos Santos Neto.  

Os anúncios indicam lojas e artigos que tratavam de colocar homens e mulheres a par das novidades no vestuário e perfumaria. Sempre enfatizando o cuidado do vestir-se bem para apresentar-se publicamente. Assim, mergulhemos no tempo para uma leitura "nas entrelinhas" do que foi a moda paraibana:

 Loja Antônio Maia & Cia, Rua Maciel Pinheiro, n°61 (Jornal A União, 14-01-1913)

"(...) uma casa de confiança, uma loja de fazendas finas, a mais antiga da praça. Especialista em casimira, brins, oliados, camisas, punhos, colarinhos, ceroulas, meias, toalhas, morins, fantasias, merinós, redes, perfumarias e artigos de moda. Preços sem competência! Importação direta. Seção de alfaiataria, confiada ao perito mestre Jurubeba. Não temos competidores"

Casa Paulista, Rua Maciel Pinheiro (Jornal A União, 14-01-1913)

"(...) um estabelecimento especializado em fazendas e roupas feitas, onde o público desta capital encontra tudo o que há de melhor e mais barato no gênero. Venha ver para crer. A Lundgren & Companhia"

Alfaiataria Ré Umberto, Rua Barão do Triunfo, n° 31 (Jornal A União, 14-01-1913)

"(...) estabelecimento de primeira ordem, administrado pelo hábil e afamado Professor Pietro Imbelloni - diplomado pela Academia de Talhos de Nápoles"

"(...) são lindos os padrões e as cores das casimiras! Quem desejar se vestir bem deve dirigir-se à Alfaiataria Ré Umberto, que é a mais frequentada pelos cavalheiros swarts, achando-se habilitada para satisfazer ao freguês mais exigente. Preço sem concorrência, venda a dinheiro"

Elite - Alfaiataria e Casa de Modas, Rua Maciel Pinheiro, n° 211 (Jornal A União, 11-01-1923)

"(...) um completo sortimento de casimiras inglesas e nacionais, brins brancos e de cores, palm beaches. Especialidade em batinas e paletós eclesiásticos. Recebe por todos os vapores, da praça do Rio de Janeiro, as novidades da moda. A Casa de sortimento mais completa desta praça"

Sapataria Internacional, Rua Barão do Triunfo, n° 405 (Jornal A União, 05-01-1923)

"(...) pelo vapor Itabatinga um lindo e grandioso sortimento, de calçados de última novidade da afamada fábrica Polar. Para satisfazer a nossa distinta freguesia, resolvemos baixar 10% de desconto, em nosso estoque de calçados, para 15 dias de festas. Aproveitem esta oportunidade de grande liquidação na Sapataria Internacional".

Festa das Neves: a moda celebra a cidade

A maior celebração que une o sagrado e o profano em rituais e festejos para Nossa Senhora das Neves, padroeira da cidade de João Pessoa, tem registro no século XVI. A Festa das Neves, como ficou conhecida, atravessa os séculos mantendo a tradição e os costumes de levar pessoas às ruas para brincadeiras, parques de diversões, pavilhões e também às missas e orações em homenagem à santa.

Atravessando o tempo, vamos mergulhar no auge destes festejos -  no final do século XIX e início do século XX - configurados como o maior acontecimento social, político e religioso da época. "Poderia ser traduzido como uma espécie de vitrine da moda, da exibição dos gostos, a fonte animadora dos desejos e dos amores dos habitantes da Paraíba", comenta o historiador Willis Leal no seu livro Memorial da Festa das Neves. Esta vitrine era desfilada na passarela da Avenida General Osório, onde localiza-se a Catedral Metropolitana e ainda hoje é celebrada a parte sacra da festa.

Uma rica pesquisa descreve a moda da época, utilizada pela elite paraibana e de como esta interferia nas relações com a sociedade e era interferida pelos padrões rígidos da moral, dos costumes e da influência religiosa. Um dos casos mais pitorescos e ilustrativos desta relação é descrita no livro de Leal, sobre o uso das famosas anquinhas, "muito famosas entre as jovens de bem". Pois bem, conta-se que a anquinha tinha uma grande utilidade, que era a de aumentar os quadris das mulheres com a utilização de arame e seda e, portanto, não eram bem vistas pelo clero, tidas como "uma singularidade maliciosa".

De acordo com Willis Leal, "maliciosa ou não, o fato concreto é que, atendendo ao apelo do vigário, as mulheres cortaram um triângulo dos seus vestidos, sendo os pedaços, após, amaldiçoados, queimados, na vista de senhoras contritas, em frente à Catedral, em cerimônia presidida por um capuchinho dizendo que seu gesto "salvava as almas daquelas antes pecadoras...". " Não há como duvidar, a moda conta a história de nosso tempo e celebra a vida de nossa cidade.

Vejamos alguns trechos do livro que narra estas histórias:

Sexo frágil

"Para o sexo frágil, o chapéu era de formato o mais diverso. Adornado de plumas, flor, véu, pássaro, e um invariável grampo que, atravessando-o de lado a lado por entre a cabeleira, o sustinha contra a ventania".

Por baixo dos panos

"Internamente, usava-se calça de perna e corpinho coberto pelo espartilho (couraça ou aspas) e, por cima, camisolas guarnecidas de rendas, bicos e fitas. Havia também as anquinhas"

Até o pescoço

"Os vestidos atavam em cima, no pescoço, e, semelhantes hábitos desciam até os tornozelos. Por isso, havia porta-cauda, um broche grande, próprio para levantar de lado o excesso da fazenda"

Detalhes escondidos

 "Arrepanhar bem as sobras da saia representava um especial donaire na elegância feminina. Sobre evitar que a roupa arrastasse pelo chão, tinha a virtude de revelar os enfeites (bordados, rendas, fitas, etc.) da saia branca."

Gafes

 "Os calçados mais em voga eram de duraque providos de lacinhos do mesmo tecido e fivelas de cima e de baixo e velbontina, atacado de um lado por carreira de botões e guarnecida em cima por uma auréola de pêlos. As luvas tinham um tipo especial para cada solenidade. Constituía uma gafe, por exemplo, acompanhar a passeata que saia, à tarde, com a bandeira dos encarregados da noite, calçando inteiras, de cano alto, as quais deviam ser usadas apenas nas novenas" 

Guarda-sol

"Não se andava de bolsa, mas raramente se deixava o guarda-sol de soda do Porto ou de lã, enfeitado de renda e babados. Cabo comprido de madrepérola ou castão dourado com laços de fita"

 

SERVIÇO:

LEAL, Wills. Memorial da Festa das Neves. João Pessoa: Gráfica Santa Marta, 1992.

CHAGAS, Waldeci Ferreira. Urbanidade, Modernidade e Cotidiano na Parahyba do Século XX. In: ABRANTES, Alômia e NETO, Martinho Guedes dos Santos. Outras Histórias - Cultura e Poder na Paraíba (1889-1930). João Pessoa: UFPB, 2010

 

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